sexta-feira, 24 de abril de 2026

Sepultura lança EP ‘The Cloud of Unknowing’, seu último trabalho de estúdio

Foto: Stephanie Veronezzi
O Sepultura lançou nesta sexta-feira, 24 de abril, pela ONErpm, o EP “The Cloud of Unknowing”. O disco é o último trabalho de estúdio da banda mineira de metal após quatro décadas de carreira.
O trabalho foi registrado ao longo de dez dias no Criteria Studios, em Miami, sob a produção de Stanley Soares. O projeto marca o primeiro lançamento oficial da banda com o baterista Greyson Nekrutman e traz quatro canções inéditas: “All Souls Rising”, “Sacred Books”, “The Place” e “Beyond the Dream”, faixa que conta com a participação especial de Tony Bellotto e Sérgio Britto, dos Titãs.
Andrea Kisser revelou que a inspiração para o título do disco veio de um movimento cristão do Século XIV. Ele afirmou ter adquirido os conceitos ao assistir a palestras do já falecido filósofo britânico Alan Watts durante a pandemia. O pensador questionava o uso excessivo de artefatos físicos e dogmas visuais para alcançar a espiritualidade. O músico relacionou a ideia com o distanciamento atual causado pela tecnologia.
“O Cloud of Unknowing me parece muito pertinente para os dias de hoje em relação à inteligência artificial. Hoje a gente vê muita gente criando um mundo paralelo; essas pessoas acham que aquilo é realidade e experiência, mas elas realmente não estão vivendo. Você precisa tirar essa nuvem do caminho e ter o acesso direto. Está todo mundo preso em telas e perdendo contato com a natureza e com as pessoas ao lado. A gente precisa se questionar se precisamos de toda essa parafernália para ter acesso à nossa espiritualidade”, explicou o guitarrista.
Já o baixista Paulo Xisto disse que “desde o começo a gente afirmou que foi um disco que não estava programado. Acho que todo o conceito dele vem nessa liberdade. Tem muita pegada do jazz pelo que o Greyson adicionou no Sepultura. Tem uma pegada meio King Crimson também. É meio prog. Então a gente tem essa visão meio eclética nesse disco. Eu tentei puxar o máximo possível das influências que eu tinha dos anos 70. Coisas do Yes, do Chris Squire. Isso foi linkado com a bateria, as guitarras pesadas. E claro, a voz do Derrick [Green]. Acho que o resultado final foi bastante satisfatório para todos nós”, explicou Paulo. Andrea ainda disse que a ideia da banda é incluir as quatro faixas do EP no setlist da turnê de despedida “Celebrating Life Through Death”. “Sem dúvida, para que elas façam parte do disco ao vivo [da turnê] também”, concluiu.
Fonte: Wikimetal
Escute “The Cloud of Unknowing” no Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/album/7gyjCQevMUqidIjSUkJKWK

CACHORRO GRANDE ANUNCIA RETORNO OFICIAL E PROJETA NOVO DISCO

Foto: Facebook
A banda porto-alegrense Cachorro Grande oficializou, após alguns anos de hiato e alguns shows esporádicos, que retornou à ativa, prometendo para breve um disco de músicas inéditas. A ideia é de que o retorno vá além da nostalgia, e marque o início de uma nova fase criativa.
O que começou como reencontros esporádicos ganhou proporção maior. Após o hiato iniciado em 2019, os integrantes voltaram a tocar juntos em apresentações especiais nos últimos anos e com as experiências que reacenderam a conexão musical e a resposta do público, o grupo transformou a turnê comemorativa de 26 anos em uma retomada permanente da carreira.
A forte química musical e a recepção positiva do público surpreenderam a banda. Em entrevista ao Blog N Roll, o vocalista Beto Bruno explicou que o entrosamento demonstrado ao vivo e a saudade dos palcos despertaram a ideia pelo retorno oficial.
A proposta, de acordo com os próprios integrantes, é clara: retomar a produção autoral e evitar que a banda se limite ao formato "turnê de reunião". A ideia é voltar a funcionar como uma banda criativa e contínua, não apenas celebrativa.
Conforme Beto Bruno "O plano é lançar esse disco antes do fim do ano e aí sim, voltar definitivamente com uma turnê, com disco. Que eu acho que é muito mais valioso. Então a maneira da gente respeitar o nosso público e a melhor maneira da gente seguir tocando seria com um disco novo. E é isso que vai acontecer. Mas o ponto mais relevante desse retorno está no futuro e não no passado. A Cachorro Grande já confirmou que entra em estúdio em junho para gravar um novo álbum, o primeiro trabalho inédito desde o fim das atividades".
A formação clássica se reúne com Beto Bruno (vocais), Marcelo Gross (guitarra), Gabriel Azambuja (bateria) e Pedro Pelotas (teclados).
Fonte: Sérgio Dall'Alba/ Whiplash.Net
Escute “Pista Livre” no Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/album/0EOHFaq2aiyDQL9KeVAlWL
Veja “Lunático” no Spotify: https://www.youtube.com/watch?v=-rc8SqdVbX4&list=RD-rc8SqdVbX4&start_radio=1

"Uma Noite Com o Dream Theater" (An Evening With Dream Theater) no Auditório Araújo Vianna, no dia 3 de maio

Foto: Mark Maryanovich
Após sua bem-sucedida turnê de 40º Aniversário na América Latina, o Dream Theater, retorna a Porto Alegre no próximo domingo, dia 3 de maio. O show pertence a turnê "Uma Noite Com o Dream Theater" (An Evening With Dream Theater), um espetáculo de aproximadamente 3 horas que celebrará o recente 16º álbum de estúdio da banda, “Parasomnia”. A apresentação acontece no Auditório Araújo Vianna, na Avenida Osvaldo Aranha, 685, Parque Farroupilha, Bom Fim, a partir das 20h.
A banda americana tocará ainda em mais cinco capitais do Brasil: dia 5, terça-feira, em Curitiba, no Live Curitiba; no dia 7, quinta-feira, em Brasília, no Dois Ipês; dia 9, sábado, em São Paulo, no Vibra São Paulo; dia 10, domingo, no Rio de Janeiro, no Vivo Rio; e no dia 12, terça-feira, em Belo Horizonte, no BeFly Hall.
Lançado em fevereiro de 2025, “Parasomnia” estreou no topo das paradas Billboard Top Hard Rock Albums, Hard Music Albums e Current Rock Albums, somando mais de 18 mil unidades vendidas na primeira semana. O disco será tocado na íntegra e ainda haverá a comemoração do 30º aniversário do aclamado “A Change of Seasons” (1995), além de outros sucessos da banda.
Com 71 minutos, “Parasomnia” reafirma a força criativa do Dream Theater e aprofunda sua abordagem conceitual sobre distúrbios do sono, contando com produção de John Petrucci, engenharia de James “Jimmy T” Meslin, mixagem de Andy Sneap e arte de Hugh Syme.
A banda atualmente conta com James LaBrie (vocais), John Petrucci (guitarra), John Myung (baixo) e Jordan Rudess (teclados) e Mike Portnoy, que reassumiu à bateria após alguns anos fora do grupo. Assim, o Dream Theater retoma à formação que moldou alguns dos capítulos mais importantes das quatro décadas de estrada.
Serviço
An Evening With Dream Theater
Local: Auditório Araújo Vianna
Endereço: Avenida Osvaldo Aranha, 685, Parque Farroupilha, Bom Fim
Quando: domingo, 03 de maio
Horário: 20h
Abertura da casa: 18h
Site de vendas: fastix.com.br/events/dream-theater-porto-alegre-2026
Vendas de ingressos físicos (sem taxas para pagamento por pix): Loja Short Fuse (Rua dos Andradas, 1560 Galeria Malcon, Loja 6B - Centro Histórico, Porto Alegre), segunda-feira a sexta-feira das 9h às 18h30. Sábado das 9h às 17h30.
Escute “Parasomnia” no Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/album/0ER7sdwIe6mfM63TbWcHmd

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A TURNÊ “50 ANOS LUZ”, DE GUILHERME ARANTES, CHEGA NESTE SÁBADO, NO AUDITÓRIO ARAÚJO VIANNA

Foto: Site Oficial Guilherme Arantes
O músico paulista Guilherme Arantes, verdadeira máquina de hits nos anos 1980, chega neste sábado ao Auditório Araújo Vianna, na Avenida Osvaldo Aranha, 685, Parque Farroupilha, Bom Fim, com show de sua turnê 50 Anos-Luz”, que comemora as suas cinco décadas de carreira.
O show contempla os principais sucessos e as canções que marcam as diferentes fases da sua trajetória.
Arantes vai tocar desde a hoje clássica música “Planeta Água”, que perdeu injustamente o prêmio de melhor canção no Festival MPB Shell de 1981, para a música "Purpurina", interpretada por Lucinha Lins, até “Cheia de Charme”, passando por “Pedacinhos”, “Deixa Chover” e “Meu Mundo e Nada Mais”.
Mas o astro não vai deixar de fora do repertório as músicas que foram incluídas na trilha sonora de novelas globais.
Serviço:
Guilherme Arantes – 50 Anos Luz
Local: Auditório Araújo Vianna
Endereço: Avenida Osvaldo Aranha, 685, Parque Farroupilha, Bom Fim
Quando: 25 de abril de 2026, sábado
Horário: 21h
Abertura da casa: 19h30
Escute “Planeta Água” no Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/track/2DPgG4E1DJtqgMu7cJiUWx

TNT CELEBRA SEU ÁLBUM DE ESTREIA NESTA SEXTA-FEIRA NO AUDITÓRIO ARAÚJO VIANNA

Foto: Divulgação
Após duas apresentações com lotação máxima no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, em 2024 e no ano passado, o TNT retorna ao mesmo local nesta sexta-feira, dia 24 de abril. A apresentação da banda vai celebrar o álbum de estreia, “TNT I”, lançado em 1986. O show na Avenida Osvaldo Aranha, 685, Parque Farroupilha, no Bom Fim, começa às 21h.
O disco é um marco fundamental na história da banda e do Rock Gaúcho, e o show se conecta diretamente ao início da trajetória do grupo.
Diferente das apresentações anteriores, o show traz um repertório exclusivo, pensado especialmente para esta data. Canções que nasceram junto com a icônica capa das flores, como “Cachorro Louco”, “Ana Banana”, “Identidade Zero” e “Oh! Deby”, voltam ao centro do palco ao lado de outros hits que marcaram um período de intensa efervescência do Rock Nacional e seguem atravessando gerações.
O TNT não vai apenas revisitar o álbum, mas tem a intenção de reafirmar a força de músicas simples, diretas e populares, que ajudaram a formar público, identidade e cena. “Um repertório que não envelheceu porque nunca pertenceu a um único tempo”, garantem os integrantes da banda.
O show contará ainda com uma participação especial.
Serviço: TNT
Local: Auditório Araújo Vianna
Endereço: Avenida Osvaldo Aranha, 685, Parque Farroupilha, Bom Fim
Quando: 24 de abril de 2026, sexta-feira
Horário: 21h
Abertura da casa: 19h30
Escute TNT no Spotify: https://open.spotify.com/playlist/7N06OVRF9aJusbHOJnTd5p

quarta-feira, 15 de abril de 2026

O “Appetite for Destruction” ainda está vivo – e foi até o Jockey Club

Texto e Fotos: Luciana Espíndola
Foto: Facebook
Confesso que cheguei ao Jockey Club do Rio Grande do Sul naquele 1º de abril com um frio na barriga que não tinha nada de brincadeira de Dia dos Bobos. Era uma quarta-feira, e ninguém ali parecia se importar que a quinta-feira seria dia útil. Porque quando o Guns N' Roses chega à cidade, o calendário pede licença. A atração de abertura foi a banda americana Halestorm, com os irmãos Lzzy Hale e Arejay Hale, que tocam Hard Rock desde 1997.
A turnê "Because What You Want and What You Get Are Two Completely Different Things" – título que parece filosofia zen, mas é puro Guns – trouxe a banda a Porto Alegre pela quinta vez. Sendo que desta vez, vieram Axl Rose (vocal e piano), Slash (guitarra solo), Duff McKagan (baixo), Richard Fortus (guitarra base), Dizzy Reed (teclados e piano) e Isaac Carpenter (bateria). E o Jockey Club, no Hipódromo do Cristal, na Zona Sul de Porto Alegre, que há anos não recebia um espetáculo desse porte, foi preparado para a ocasião com toda a grandiosidade que o evento merecia. O espaço que outrora viu o galope de cavalos puros-sangue viu, naquela noite, algo ainda mais veloz: a energia elétrica de uma banda que se recusa, categoricamente, a envelhecer na medida certa.
Digo "na medida certa" porque envelhecer eles envelheceram – e muito bem, obrigada. Mas voltemos a isso.
1990. Um ônibus. Um rádio. E uma guerra
Antes de falar do show, preciso fazer um desvio sentimental. Em 1990, era comum ver jovens pelas ruas com grandes rádios com compartimento para fita cassete equilibrados no ombro – aqueles aparelhos de plástico preto que pesavam como uma maleta e tinham antena de satélite. Num ônibus qualquer de Porto Alegre, vi um rapaz ser agredido porque se recusou a baixar o volume do seu rádio. A música que tocava, à toda, enquanto ele levava o maior sermão da vida, era “Sweet Child O' Mine”. Ele não abaixou o som. Eu achei aquilo o máximo.
Hoje, trinta e seis anos depois, aquela mesma música soou no Jockey e eu tive vontade de ligar para ele – seja lá quem for – e dizer: "Cara. Você estava certo."
O rei de calção virou um monarca de terno (quase)
Quem acompanha Axl Rose desde os tempos de “Appetite for Destruction” sabe que o homem inventou um estilo próprio de presença de palco. Nos anos de ouro, ele aparecia de shorts – aquelas bermudas compridas que lembravam ceroulas, mas que nele viravam manifesto de liberdade – com a bandana na cabeça, a tatuagem de braço de fora e aquele andar de serpente, sinuoso e imprevisível, de uma ponta à outra do palco. Axl não ficava parado. Axl habitava o palco. Enquanto, geralmente, roqueiros vestiam roupas pretas, ele vestia ceroulas ou saias – virou uma marca, expressão e manifesto.
O Axl de 2026 ainda habita o palco. Mas agora com um pouco mais de peso – no sentido mais nobre da palavra. O corpo mudou, a roupa ficou mais sóbria, a postura ganhou uma gravidade que, paradoxalmente, só aumentou sua presença. Ele está mais contido nos movimentos, mas quando abre a boca, alguma coisa dentro do peito da plateia treme. A voz chegou, não com a mesma agilidade acrobática dos anos 1980 e 1990, mas com uma densidade que só o tempo dá.
Sim, há quem diga que sua voz hoje lembra um pouco o Mickey Mouse nos agudos mais arriscados. Não vou mentir: há momentos em que a comparação faz algum sentido. Eu mesma brinquei com amigos, dizendo que durante o show fechava os olhos e me sentia na Disney, mas foi apenas brincadeira – foi emocionante e uma honra estar ali. E permitam-me ser mais direta – as cordas vocais também envelhecem. As deles, as minhas, as suas. Axl Rose passou décadas gritando do fundo da alma em estádios lotados ao redor do mundo. Se a voz saiu um pouco rouca dessa batalha, é porque a batalha valeu cada nota. Cobrar de um homem de 64 anos a voz que ele tinha aos 26 é quase tão injusto quanto pedir para a gente, jornalistas de meia-idade (cóf, cóf, hãm, hãm), escrever com a mesma ingenuidade emocionada dos tempos de faculdade.
A diferença é que ele ainda tenta. E isso, meus caros, é poético.
Slash, Duff e o suor coletivo de uma geração
Se Axl é a voz e o teatro, Slash é a alma. Cartola, cabelos em espiral, olhos quase sempre escondidos com óculos escuros, as tatuagens e aquela Les Paul que parece uma extensão orgânica do seu corpo – Slash tocou como se o mundo dependesse de cada acorde. O telão gigante era, naquele momento, um serviço público: aproximava rostos, dedos, expressões. Era possível ver cada gota de suor brotando, cada veia do pescoço saltando, cada olho semicerrado na concentração de quem não está tocando – está sendo música.
Duff McKagan, no baixo, com aquela postura de rocker que nunca precisou de manual, completava o triângulo perfeito de uma banda que, contra todas as probabilidades da indústria, do ego e do tempo, ainda existe — e ainda importa.
"Lá vem outra pedrada"
O intervalo entre uma música e outra era curto. Quase cruel, no bom sentido. Antes que a euforia de uma canção arrefecesse, já chegava a próxima. E a cada vez que os primeiros acordes soavam, a mesma frase corria de boca em boca pela multidão: "Lá vem outra pedrada." Era uma constatação, um aviso, uma celebração. A plateia não tinha tempo de respirar – e não queria.
O público era uma colcha de gerações. Veteranos de cabelos grisalhos que foram ao show de 2010 com 30 anos e voltaram ao de 2026 com 46. Adultos que descobriram a banda pelo Spotify e chegaram sem saber muito bem o que esperar – e saíram convertidos. Alguns já estavam ali há mais de 24 horas para prestigiar seus artistas favoritos. E crianças. Crianças de uns dez anos, com os pais ao lado, aprendendo naquela noite o que é uma pedrada musical de verdade. Uma menina perto de mim cantava “Paradise City” com uma convicção que me deixou sem palavras. Ela não viveu os anos 1980 e 1990. Não importa.
O Rock tem essa generosidade estranha de não precisar de passado para fazer sentido no presente.
O que fica
Quando o show terminou e a multidão começou a se dispersar pela Avenida Diário de Notícias – alguns em silêncio, cheiro de churrasquinho no ar, vendas de artigos da banda para todos os lados, outros ainda cantarolando, muitos com aquele olhar de quem acabou de sair de uma missa leiga – fiquei pensando naquele rapaz do ônibus de 1990.
Pensei que o Guns N' Roses sempre foi isso: música que as pessoas defendem. Que ninguém abaixa o volume. Que atravessa décadas sem pedir desculpas por existir.
Axl pode não ter mais o calção de ceroula. Slash pode estar um pouco mais lento nos dedilhados mais acelerados. A voz pode ter lá seus momentos Mickey. Mas naquela noite no Jockey, quando o telão mostrou o rosto suado e concentrado de cada músico entregando tudo o que ainda tem – que é muito, muito mesmo – entendi que envelhecer bem não é não mudar.
É continuar aparecendo. Com o chapéu. Com a guitarra. Com a voz que deu.
E fazer todo mundo dizer, mais uma vez: lá vem outra pedrada.

Lynyrd Skynyrd em Porto Alegre: uma noite espiritual que entrou para a história do Araújo Vianna

Texto: Cássio Toledo – Canal Na Ponta da Agulha Canal
Fotos: Carlos Vargas
O que parecia inimaginável finalmente aconteceu. Quando menos se esperava, no fim de 2025, foi anunciado que a lendária Lynyrd Skynyrd pisaria em solo brasileiro em 2026. E Porto Alegre entrou nessa rota histórica, com produção da Mercury Concerts, no emblemático Auditório Araújo Vianna — palco de memórias que atravessam gerações.
Aqui escreve um cidadão latino-americano, um confesso “belchioriano”, em referência ao eterno Belchior, que aprendeu a venerar o Southern Rock desses americanos que ensinaram o mundo a equilibrar peso, groove e emoção.
Com casa lotada, mesmo com preços elevados e muitos grandes shows em datas próximas umas das outras (no dia anterior, teve Extreme na mesma casa) o show no dia 7 de abril, terça-feira, começou pontualmente às 21h — raridade que já indicava uma noite especial.
Setlist com história: cada música, um capítulo
A abertura com “Workin’ for MCA” já mostrou o tom da noite. A faixa é do álbum “Second Helping” (1974), segundo disco da banda — e carrega uma ironia direta ao contrato com a própria gravadora MCA Records. Um início afiado, cheio de atitude.
Logo depois, ainda no embalo inicial, “What’s Your Name” (do álbum Street Survivors, 1977) colocou o público para dançar. Curiosamente, esse disco foi lançado apenas três dias antes do trágico acidente aéreo que mudaria para sempre a história da banda.
Na sequência, “That Smell”, também de “Street Survivors”, intensificou a energia. A música, que fala sobre excessos e autodestruição, ganhou ainda mais peso simbólico após a tragédia de 1977 — e mesmo em um tom levemente abaixo, não perdeu força ao vivo.
O clima mudou com “I Need You”, outra de “Second Helping” (1974), trazendo um momento mais blues e introspectivo. Vale lembrar que esse disco também abriga o clássico absoluto “Sweet Home Alabama”, consolidando a banda no cenário mundial.
A intensidade voltou com “Gimme Back My Bullets”, faixa-título do álbum de 1976. Um disco que marcou uma fase de transição e resistência da banda — e que, em 2026, completa 50 anos, sendo celebrado em grande estilo na turnê.
Groove, crítica social e Southern Rock raiz
Um dos momentos mais surpreendentes foi “Saturday Night Special”, faixa de abertura de “Nuthin’ Fancy” (1975). Apesar da levada dançante e cheia de groove, a música traz uma crítica direta à violência armada — contraste que funcionou perfeitamente ao vivo. Faltou só uma pista de dança para transformar o Araújo Vianna em uma cena digna de Saturday Night Fever com John Travolta.
Já “Still Unbroken”, do álbum “God & Guns” (2009), representou a fase mais recente da banda. Escrita em homenagem ao baixista Leon Wilkeson, a faixa trouxe um peso mais direto, mostrando que o Skynyrd também sabe soar atual sem perder a essência.
Voltando aos anos 70, “The Needle and the Spoon” (Second Helping, 1974) trouxe o Southern Rock mais cru — aquele que a maioria do público queria ouvir. E a resposta veio em gritos viscerais.
Emoção, legado e homenagens
Um dos pontos mais emocionantes da noite foi “Tuesday’s Gone”, do álbum de estreia (Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd) (1973). No telão, imagens de Gary Rossington — último membro da formação original, falecido em 2023 — deram o tom de despedida e reverência.
Logo depois, “Simple Man”, também do disco de estreia, elevou o nível emocional. A canção, com sua mensagem atemporal de uma mãe aconselhando o filho, é um dos pilares da identidade da banda — e ao vivo, ganhou contornos ainda mais profundos, arrancando lágrimas dos lynyrdys maníacos, inclusive a vossa pessoa aqui. A energia voltou com “Gimme Three Steps” (1973), uma das músicas mais dançantes da fase inicial, seguida por “Call Me the Breeze”, clássico de J.J. Cale regravado no “Second Helping”. Destaque para o piano incendiário de Peter Keys.
O momento Brasil: Sweet Home… Rio Grande do Sul
Quando “Sweet Home Alabama” finalmente surgiu, foi explosão coletiva. A música, um dos maiores hinos do Rock, ganhou ainda mais força ao ver Johnny Van Zant empunhando a bandeira do Rio Grande do Sul — gesto que selou a conexão com o público brasileiro.
Curioso notar como a faixa atravessa gerações, chegando até os mais jovens, muitos deles impactados por jogos como Grand Theft Auto.
“Freebird”: o ápice absoluto
Após a saída do palco, os gritos por “Freebird” ecoaram pelo Araújo.
E então, o momento final.
A águia surgiu. O telão trouxe imagens de Ronnie Van Zant, em um dueto emocionante com seu irmão Johnny. A sensação era de que Ronnie estava ali, presente.
E quando o solo começou, com Rickey Medlocke assumindo o protagonismo, o tempo parou. Foram quase 10 minutos de pura catarse — um dos momentos mais intensos já vistos naquele palco.
Uma noite além da música
A própria banda definiu o show como “espiritual”.
E é difícil discordar.
Foi mais do que um show: foi uma aula de história do rock, uma celebração de legado e uma prova viva de que, mesmo após décadas e perdas irreparáveis, o Lynyrd Skynyrd segue carregando sua essência com dignidade. Quem esteve lá não assistiu apenas a um espetáculo.
Participou de um capítulo da história.

Sepultura lança EP ‘The Cloud of Unknowing’, seu último trabalho de estúdio

Foto: Stephanie Veronezzi O Sepultura lançou nesta sexta-feira, 24 de abril, pela ONErpm, o EP “The Cloud of Unknowing”. O disco é o último...