Texto e Fotos: Luciana Espíndola
Foto: Facebook
Confesso que cheguei ao Jockey Club do Rio Grande do Sul naquele 1º de abril com um frio na barriga que não tinha nada de brincadeira de Dia dos Bobos. Era uma quarta-feira, e ninguém ali parecia se importar que a quinta-feira seria dia útil. Porque quando o Guns N' Roses chega à cidade, o calendário pede licença. A atração de abertura foi a banda americana Halestorm, com os irmãos Lzzy Hale e Arejay Hale, que tocam Hard Rock desde 1997.
A turnê "Because What You Want and What You Get Are Two Completely Different Things" – título que parece filosofia zen, mas é puro Guns – trouxe a banda a Porto Alegre pela quinta vez. Sendo que desta vez, vieram Axl Rose (vocal e piano), Slash (guitarra solo), Duff McKagan (baixo), Richard Fortus (guitarra base), Dizzy Reed (teclados e piano) e Isaac Carpenter (bateria). E o Jockey Club, no Hipódromo do Cristal, na Zona Sul de Porto Alegre, que há anos não recebia um espetáculo desse porte, foi preparado para a ocasião com toda a grandiosidade que o evento merecia. O espaço que outrora viu o galope de cavalos puros-sangue viu, naquela noite, algo ainda mais veloz: a energia elétrica de uma banda que se recusa, categoricamente, a envelhecer na medida certa.
Digo "na medida certa" porque envelhecer eles envelheceram – e muito bem, obrigada. Mas voltemos a isso.
1990. Um ônibus. Um rádio. E uma guerra
Antes de falar do show, preciso fazer um desvio sentimental. Em 1990, era comum ver jovens pelas ruas com grandes rádios com compartimento para fita cassete equilibrados no ombro – aqueles aparelhos de plástico preto que pesavam como uma maleta e tinham antena de satélite. Num ônibus qualquer de Porto Alegre, vi um rapaz ser agredido porque se recusou a baixar o volume do seu rádio. A música que tocava, à toda, enquanto ele levava o maior sermão da vida, era “Sweet Child O' Mine”. Ele não abaixou o som. Eu achei aquilo o máximo.
Hoje, trinta e seis anos depois, aquela mesma música soou no Jockey e eu tive vontade de ligar para ele – seja lá quem for – e dizer: "Cara. Você estava certo."
O rei de calção virou um monarca de terno (quase)
Quem acompanha Axl Rose desde os tempos de “Appetite for Destruction” sabe que o homem inventou um estilo próprio de presença de palco. Nos anos de ouro, ele aparecia de shorts – aquelas bermudas compridas que lembravam ceroulas, mas que nele viravam manifesto de liberdade – com a bandana na cabeça, a tatuagem de braço de fora e aquele andar de serpente, sinuoso e imprevisível, de uma ponta à outra do palco. Axl não ficava parado. Axl habitava o palco. Enquanto, geralmente, roqueiros vestiam roupas pretas, ele vestia ceroulas ou saias – virou uma marca, expressão e manifesto.
O Axl de 2026 ainda habita o palco. Mas agora com um pouco mais de peso – no sentido mais nobre da palavra. O corpo mudou, a roupa ficou mais sóbria, a postura ganhou uma gravidade que, paradoxalmente, só aumentou sua presença. Ele está mais contido nos movimentos, mas quando abre a boca, alguma coisa dentro do peito da plateia treme. A voz chegou, não com a mesma agilidade acrobática dos anos 1980 e 1990, mas com uma densidade que só o tempo dá.
Sim, há quem diga que sua voz hoje lembra um pouco o Mickey Mouse nos agudos mais arriscados. Não vou mentir: há momentos em que a comparação faz algum sentido. Eu mesma brinquei com amigos, dizendo que durante o show fechava os olhos e me sentia na Disney, mas foi apenas brincadeira – foi emocionante e uma honra estar ali. E permitam-me ser mais direta – as cordas vocais também envelhecem. As deles, as minhas, as suas. Axl Rose passou décadas gritando do fundo da alma em estádios lotados ao redor do mundo. Se a voz saiu um pouco rouca dessa batalha, é porque a batalha valeu cada nota. Cobrar de um homem de 64 anos a voz que ele tinha aos 26 é quase tão injusto quanto pedir para a gente, jornalistas de meia-idade (cóf, cóf, hãm, hãm), escrever com a mesma ingenuidade emocionada dos tempos de faculdade.
A diferença é que ele ainda tenta. E isso, meus caros, é poético.
Slash, Duff e o suor coletivo de uma geração
Se Axl é a voz e o teatro, Slash é a alma. Cartola, cabelos em espiral, olhos quase sempre escondidos com óculos escuros, as tatuagens e aquela Les Paul que parece uma extensão orgânica do seu corpo – Slash tocou como se o mundo dependesse de cada acorde. O telão gigante era, naquele momento, um serviço público: aproximava rostos, dedos, expressões. Era possível ver cada gota de suor brotando, cada veia do pescoço saltando, cada olho semicerrado na concentração de quem não está tocando – está sendo música.
Duff McKagan, no baixo, com aquela postura de rocker que nunca precisou de manual, completava o triângulo perfeito de uma banda que, contra todas as probabilidades da indústria, do ego e do tempo, ainda existe — e ainda importa.
"Lá vem outra pedrada"
O intervalo entre uma música e outra era curto. Quase cruel, no bom sentido. Antes que a euforia de uma canção arrefecesse, já chegava a próxima. E a cada vez que os primeiros acordes soavam, a mesma frase corria de boca em boca pela multidão: "Lá vem outra pedrada." Era uma constatação, um aviso, uma celebração. A plateia não tinha tempo de respirar – e não queria.
O público era uma colcha de gerações. Veteranos de cabelos grisalhos que foram ao show de 2010 com 30 anos e voltaram ao de 2026 com 46. Adultos que descobriram a banda pelo Spotify e chegaram sem saber muito bem o que esperar – e saíram convertidos. Alguns já estavam ali há mais de 24 horas para prestigiar seus artistas favoritos. E crianças. Crianças de uns dez anos, com os pais ao lado, aprendendo naquela noite o que é uma pedrada musical de verdade. Uma menina perto de mim cantava “Paradise City” com uma convicção que me deixou sem palavras. Ela não viveu os anos 1980 e 1990. Não importa.
O Rock tem essa generosidade estranha de não precisar de passado para fazer sentido no presente.
O que fica
Quando o show terminou e a multidão começou a se dispersar pela Avenida Diário de Notícias – alguns em silêncio, cheiro de churrasquinho no ar, vendas de artigos da banda para todos os lados, outros ainda cantarolando, muitos com aquele olhar de quem acabou de sair de uma missa leiga – fiquei pensando naquele rapaz do ônibus de 1990.
Pensei que o Guns N' Roses sempre foi isso: música que as pessoas defendem. Que ninguém abaixa o volume. Que atravessa décadas sem pedir desculpas por existir.
Axl pode não ter mais o calção de ceroula. Slash pode estar um pouco mais lento nos dedilhados mais acelerados. A voz pode ter lá seus momentos Mickey. Mas naquela noite no Jockey, quando o telão mostrou o rosto suado e concentrado de cada músico entregando tudo o que ainda tem – que é muito, muito mesmo – entendi que envelhecer bem não é não mudar.
É continuar aparecendo. Com o chapéu. Com a guitarra. Com a voz que deu.
E fazer todo mundo dizer, mais uma vez: lá vem outra pedrada.



















