quarta-feira, 29 de abril de 2026

O CULTO DA LUCIFER EM PORTO ALEGRE — ENTRE RITUAL, MEMÓRIA E AFIRMAÇÃO NO ROCK CONTEMPORÂNEO

Texto: Cássio Toledo – Canal na Ponta da Agulha
Fotos: Giovanni John Maglia
Na véspera de feriado de Tiradentes, uma noite de segunda-feira, dia 20 de abril, Porto Alegre recebeu um tipo diferente de manifestação: estética, sonora e quase espiritual.
A estreia do Lucifer no Espaço Marin não foi apenas mais um show de turnê. Foi um capítulo dentro de um movimento maior que a banda vem desenhando ao vivo: transformar apresentações em experiências de imersão, onde som, imagem e memória se cruzam.
E isso já vinha sendo percebido dias antes, em Florianópolis.
No palco do Célula Showcase, a banda entregou um show descrito como intenso e guiado por atmosfera, com uma abordagem que vai além da execução musical — há uma construção emocional que dialoga com nostalgia, tempo e pertencimento . Essa ideia ajuda a entender o que se viu em Porto Alegre: o Lucifer não toca apenas músicas, mas ativa sensações.
Pontualmente às 21h, no Espaço Marin, o cenário se repetiu — e se aprofundou.
A iluminação vermelha dominante não é um mero recurso estético. Ela funciona como linguagem. Cria um ambiente denso, quase litúrgico, que conecta diretamente com a proposta da banda: um rock que flerta com o oculto, mas sem caricatura. Há controle, intenção e identidade.
Com pouco mais de apenas 200 pessoas, o show em Porto Alegre teve um caráter quase secreto — como se fosse reservado a iniciados. E isso potencializa a experiência. Diferente de grandes festivais, aqui o impacto é direto, sem filtros.
O repertório percorreu os quatro álbuns da banda, consolidando uma década de trajetória construída com consistência. Faixas como “Lucifer” e “Bring Me His Dead” funcionam como pilares, enquanto as músicas mais recentes — especialmente do ótimo álbum “Lucifer V” — mostram uma banda em plena evolução criativa.
Canções como “At The Mortuary” e “Slow Dance In A Crypt” reforçam essa dualidade: peso e melodia, densidade e acessibilidade. Não é um Doom Metal arrastado no sentido clássico — há dinâmica, há respiro. E isso explica parte da conexão com o público.
Mas o centro gravitacional continua sendo Johanna Sadonis.
Sua presença de palco não é expansiva no sentido tradicional. Não há exagero, nem teatralidade forçada. O magnetismo vem da contenção. Da forma como sua voz — ao mesmo tempo doce e carregada — conduz as músicas e sustenta a narrativa do show. Ao vivo, isso se traduz em algo difícil de replicar em estúdio: sensação.
Ela soube bem em reestruturar a banda, após o divórcio com seu companheiro de vida e de banda, o co-fundador Nicki Anderson, a voz da The Hellacopters, com quem gravou os álbuns, ele era o baterista da banda.
Atualmente, os Luciferianos são Rosalie Cunningham (tem ótima carreira solo, vale conferir) dividindo as guitarras com Coralie Baier; Claudia González Diaz no baixo que tocou muito nessa noite com seu Rickenbecker, e o sósia do Lemmy Kilmister, o jovem Kevin Huhn na bateria.
Esse aspecto já havia sido percebido em outras apresentações da banda no Brasil, onde a performance é descrita como envolvente, com forte uso de atmosfera e uma execução que soa tão ou mais impactante do que as gravações.
Em Porto Alegre, isso ficou evidente.
A banda soa coesa, segura e sem excessos. Não há virtuosismo gratuito. Tudo está a serviço da música — e da experiência. Os riffs são diretos, carregados de identidade setentista, mas com uma leitura contemporânea que evita o pastiche.
E talvez seja exatamente aí que mora a resposta para a pergunta central: por que o Lucifer já figura como uma das principais forças do Rock Mundial atual?
Porque entende algo que muitas bandas perderam: o rock não é só som — é linguagem, estética e memória.
O show, com cerca de 75 minutos, segue a lógica da banda: intensidade concentrada. Sem excessos, sem dispersão. E, como em outras cidades, deixa aquela sensação inevitável de que poderia ter durado mais — não por falta, mas por impacto.
No fim, o que fica não é apenas a lembrança das músicas tocadas, mas da atmosfera construída. Um tipo de experiência que não se encerra quando as luzes se apagam.
Assim como em Florianópolis, onde o show foi marcado por essa relação entre intensidade e memória, Porto Alegre recebeu não apenas uma apresentação — mas um rito contemporâneo dentro do Rock.
E quem esteve lá, sabe: não foi só um show.
Foi o culto.

SOB A CHUVA E APLAUSOS, GUILHERME ARANTES EMOCIONA PORTO ALEGRE COM 50 ANOS DE MÚSICA E MUITO CARISMA

Texto e fotos: Luciana Espíndola
Com piano de cauda, histórias que precediam cada canção e uma generosidade rara de palco, o cantor e compositor paulistano celebrou meio século de carreira no Auditório Araújo Vianna na noite de sábado, 25 de abril.
A previsão era de chuva, e a noite cumpriu o anúncio – fina, insistente, tipicamente gaúcha. Mesmo assim, o Araújo Vianna estava lotado. Alguns chegaram com guarda-chuvas, outros vieram já molhados. O mau tempo ficou do lado de fora.
A noite marcou mais uma etapa da turnê "50 Anos-Luz", celebração de meio século de carreira de um dos artistas mais consagrados da Música Nacional, que revisita clássicos que marcaram gerações em um espetáculo que combina emoção, tecnologia e a força de uma obra que se tornou trilha sonora da vida de milhões de brasileiros.
O artista e seus instrumentos
Um dos maiores pianistas do país, Guilherme Arantes é um dos poucos brasileiros a integrar o Hall da Fama da tradicional fabricante americana de pianos Steinway & Sons. E foi justamente ao piano que ele dominou o palco do Araújo Vianna naquela noite de sexta-feira. Alternando com naturalidade entre o piano de cauda e o teclado ao longo do show, Arantes demonstrou por que seus 72 anos de idade e cinco décadas de estrada não diminuíram em nada a sua autoridade musical. Pelo contrário: há uma precisão e uma intimidade com os instrumentos que só o tempo constrói.
O piano de cauda ocupava o centro do palco como uma declaração de intenções. Quando Arantes se sentou diante dele, a plateia sabia que estava prestes a receber algo além de algumas músicas – receberam confissões. A música “Pedacinhos”, por exemplo, aquela que fala “Bye Bye, So Long, Farewell” foi escrita para Vanusa. Porém, em virtude à sua separação de Antônio Marcos, ela não achou de bom tom gravá-la.
De corpo e alma no palco
Guilherme Arantes não é daqueles artistas que ficam parados atrás de um instrumento esperando a música acabar. Durante toda a noite, conversou com o público com a gesticulação ampla e espontânea de quem não sabe fingir distância. Sacudia as pernas no ritmo, batia palmas convidando a plateia a entrar junto, sorria com a desenvoltura de quem está exatamente onde quer estar. Em certos momentos, parecia menos um artista conduzindo um show e mais um anfitrião recebendo amigos em casa – e a plateia respondia na mesma moeda, sem cerimônia.
Essa presença física e emocional incendiou o coração do público com uma energia que a chuva lá fora não tinha a menor chance de apagar.
As histórias antes das canções
Uma das marcas mais expressivas da noite foi a generosidade narrativa de Guilherme Arantes. Em diversas músicas do setlist – que incluiu sucessos como “Amanhã”, “Planeta Água”, “Meu Mundo e Nada Mais”, “Pedacinhos”, “Cheia de Charme”, “Lance Legal”, “Loucas Horas” e outros – o artista tomava o microfone antes dos primeiros acordes para contar a história por trás daquela canção: quando a escreveu, em que circunstância de vida, para quem, porque.
Não eram discursos longos nem ensaiados. Eram confidências. O tipo de coisa que transforma um show em algo muito mais próximo de uma conversa entre velhos conhecidos. A plateia ouvia em silêncio respeitoso e reagia com o calor de quem se reconhece naquelas histórias – porque em muitos casos, de fato se reconhecia. Muitas daquelas canções estiveram presentes em momentos que o público lá presente viveu de forma muito concreta.
Banda e agradecimentos
Arantes fez questão de apresentar cada integrante que o acompanhava naquela noite: Willy Verdaguer no contrabaixo, Gabriel Martini na bateria e Alexandre Blanc na guitarra. Cada um chamado pelo nome, com palavras de reconhecimento genuíno pelo trabalho compartilhado.
Mas o momento que mais tocou foi quando o cantor falou sobre a ausência do guitarrista Luiz Sérgio Carlini, que não pôde estar em Porto Alegre por estar se recuperando de uma pneumonia. Arantes pediu uma salva de palmas para ele – gesto simples e cheio de afeto, que arrancou aplausos calorosos da plateia. E explicou, com a leveza de quem cuida das pessoas ao redor, que ninguém havia sido escalado especificamente para substituí-lo: todos os músicos presentes haviam absorvido coletivamente a sua ausência, dividindo entre si o que Carlini normalmente faz. Uma solução que revela tanto a qualidade daqueles músicos quanto o espírito de equipe que sustenta aquele grupo.
Os agradecimentos se estenderam também a toda a equipe de produção, técnicos, roadies e organizadores que tornaram o espetáculo possível. Num cenário em que o trabalho por trás dos bastidores raramente é reconhecido publicamente, aquele gesto simples e direto fez diferença.
“Deixa Chover” e a cumplicidade com a noite
Havia uma música no repertório que, naquela sexta-feira chuvosa, adquiriu uma dimensão quase teatral. Quando os primeiros acordes de “Deixa Chover” soaram, a plateia teve exatamente a reação que uma coincidência tão perfeita merece: um sorriso coletivo, aquele tipo de alegria compartilhada que só acontece ao vivo. Do lado de fora do auditório, a chuva continuava caindo. Dentro, Arantes cantava como se tivesse combinado tudo com o tempo. No telão, uma imagem de paisagem com céu chuvoso completava o espetáculo.
A canção – que já percorreu trilhas de novela e décadas de rádio – ganhou naquela noite um contexto que nenhum estúdio poderia reproduzir. E o público cantou junto, é claro. Como sempre faz.
“Um Dia, Um Adeus” – em dois idiomas, duas emoções
Ainda no corpo do show, antes do encerramento, a noite reservou um dos seus momentos mais icônicos. “Um Dia, Um Adeus” é um dos maiores clássicos de Guilherme Arantes – canção que atravessa décadas sem perder uma gota de emoção. Mas naquele sábado no Araújo Vianna ela ganhou uma dimensão extra: Arantes a cantou primeiro em português, com toda a carga afetiva que a letra carrega em língua materna, e em seguida em inglês – versão que ficou conhecida como “Wonderful in My Life”. Para acompanhar, o telão ao fundo projetava a letra em inglês, gesto cuidadoso que permitia a todos acompanhar cada palavra.
Ouvir a mesma canção nas duas línguas, na sequência, enquanto as palavras apareciam iluminadas ao fundo, foi como ver a mesma paisagem ao amanhecer e ao entardecer: diferente, complementar, igualmente bela.
O bis, os beijos e a grade que virou encontro
Quando o show deu sinais de encerramento, a plateia não quis deixar. O coro de "mais um" tomou o Araújo Vianna com a insistência carinhosa de quem não se conforma com a despedida. E Guilherme Arantes – que claramente também não queria ir embora – voltou ao palco com a banda para o bis que a noite merecia.
Uma das escolhas foi “Fã Número 1”, e o efeito foi imediato: quem estava sentado levantou, quem estava de pé avançou em direção à grade de contenção. Os seguranças, naquele momento, fizeram o que toda boa segurança sabe fazer quando a situação pede: deixaram acontecer. A aproximação foi permitida, e o espaço entre o público e o palco encolheu até quase desaparecer.
No trecho "Ali no gargarejo, jogando beijo", a letra saiu da música e entrou na realidade: fãs de todas as idades jogavam beijos para o palco e faziam corações com as mãos, num daqueles gestos coletivos e espontâneos que nenhum diretor de show consegue ensaiar. Arantes recebeu tudo aquilo com o sorriso de quem sabe exatamente o que significa.
“Balão Azul” e a paleta que virou memória
O encerramento foi puro afeto. “Balão Azul” – canção que habita o imaginário afetivo de pelo menos duas gerações de brasileiros – fechou a noite com alegria leve e certeira.
E foi justamente nesse clima de celebração que aconteceu um dos gestos mais delicados e quase despercebido da noite: o guitarrista Alexandre Blanc avistou um menino que acompanhava a mãe bem próximo ao palco, acenou para um dos seguranças e pediu que entregasse ao garoto a sua paleta de guitarra. Um gesto pequeno. Do tipo que uma criança não esquece.
Cinquenta anos que chegaram à luz
Com mais de 140 apresentações anuais, sempre embaladas por plateias que cantam em coro seus sucessos, Guilherme Arantes prova que sua música é atemporal e segue conquistando novas gerações. Nos anos 1980, com seu dom para criar melodias cativantes e letras extremamente fortes e sensíveis, chegou a colocar 12 músicas em primeiro lugar nas paradas de sucesso do país. Com mais de 30 composições eternizadas em novelas e interpretadas por artistas como Elis Regina, Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Zezé Di Camargo & Luciano e Anavitória, Guilherme Arantes consolida seu lugar como patrimônio da música nacional.
Cinquenta anos de luz não são apenas cinquenta anos de canções lançadas. São cinquenta anos de histórias contadas antes do primeiro acorde, de beijos jogados para o palco, de crianças que recebem uma paleta de guitarra e guardam para sempre. De uma obra que escolheu as pessoas – e que as pessoas, correspondendo, escolheram de volta.
Na noite de sábado em Porto Alegre, sob a chuva que “Deixa Chover” parecia ter convidado, Guilherme Arantes provou mais uma vez que meio século de estrada não cansa. Renova.
A turnê "50 Anos-Luz" segue pelo Brasil. Próximas datas: Ribeirão Preto (09/05), Belém (15/05), Manaus (16/05), Brasília (23/05) e Santos (30/05).

REVISITING CREEDENCE FAZ NOITE HISTÓRICA NO ARAÚJO VIANNA E REVIVE A ALMA DO BAYOU EM PORTO ALEGRE

Texto e fotos: Luciana Espíndola
O quarteto liderado por Dan McGuinness e Kurt Griffey entregou cerca de 90 minutos de clássicos do Creedence Clearwater Revival; show integrou a South America Tour 2026, na noite de quinta-feira, 23 de abril, a partir das 21h15min.
O Auditório Araújo Vianna, na Avenida Osvaldo Aranha, se transformou em uma máquina do tempo com destino à Califórnia dos anos 1960. A banda Creedence Clearwater Revival (CCR), que outrora se chamava The Blue Velvets e The Golliwogs, entregou um grande espetáculo tocando seus maiores sucessos.
O responsável pela viagem foi o Revisiting Creedence, grupo que carrega no nome e no DNA a missão de manter vivo o legado do Creedence Clearwater Revival. Após décadas rodando o mundo ao lado de Stu Cook e Doug "Cosmo" Clifford – os dois membros sobreviventes da formação original do CCR – o vocalista e guitarrista Dan McGuinness e o guitarrista Kurt Griffey voltaram a Porto Alegre com uma formação afiada e um repertório capaz de fazer qualquer amante do rock clássico perder o fôlego.
A banda iniciou no final dos anos 1950, quando quatro jovens chamados John Fogerty, Tom Fogerty, Stu Cook e Doug Clifford inventaram um som que misturava Rock, Blues e Country e conquistaram o mundo inteiro. Mas foi em 1967 que escolheram definitivamente o nome do grupo.
O público que foi ao encontro da própria história
A plateia que foi chegando ao longo da noite era formada, em grande parte, por pessoas que carregam o CCR na memória afetiva de forma muito concreta – casais lado a lado, mãos dadas, muitos deles tiveram essas músicas como trilhas de suas vidas. Havia ali uma cumplicidade silenciosa entre o público e o repertório que estava por vir: a de quem não vai simplesmente assistir a um show, mas reencontrar algo que lhe pertence. Não são apenas singles, são hinos de uma geração nostálgica.
Esse tipo de plateia não grita por impulso. Ela reconhece. E quando reconhece, vai fundo.
Uma linhagem de respeito
Para entender o peso do que aconteceu no Araújo Vianna, é preciso conhecer a história por trás do projeto. McGuinness e Griffey passaram mais de uma década tocando ao lado dos próprios fundadores do CCR no projeto Creedence Clearwater Revisited — criado em 1995 por Cook e Clifford para levar o repertório da banda aos palcos do mundo depois da separação oficial, em 1972. Não se trata, portanto, de músicos que simplesmente estudaram um som. São profissionais que o viveram de dentro.
O Revisiting Creedence surgiu para dar sequência a essa linhagem depois que o Revisited encerrou suas atividades em 2021. Completando a formação atual estão o baixista Mat Scarpelli e o baterista Ron Wikso – este último escolhido pessoalmente por Doug Clifford para ocupar a cadeira que ele mesmo deixou. A palavra "substituto" soa quase injusta para descrever Wikso: sua precisão rítmica na noite de quinta foi cirúrgica, honrando o posto com a seriedade que ele exige.
O show
Quando McGuinness abriu a boca para o primeiro verso de "Born On The Bayou", o pacto entre palco e plateia estava firmado. A voz rouca, quente e inconfundível que o gaúcho esperava ouvir estava lá – não como imitação, mas como interpretação comprometida e respeitosa de um cancioneiro que pertence à humanidade.
Desde os primeiros minutos, ficou claro que McGuinness e seus companheiros não vieram apenas tocar — vieram conversar. Entre uma música e outra, o vocalista tomava o microfone e se dirigia ao público no seu próprio idioma, o inglês, com a descontração de quem não precisa de tradução para se fazer entender – porque a música já havia feito esse trabalho. Em determinado momento da noite, McGuinness empunhou uma bandeira do Brasil sobre o palco, gesto que arrancou uma das maiores reações da noite e deixou claro que o carinho pela plateia brasileira não era protocolo: era genuíno. Perguntava se a galera estava bem, agradecia com emoção visível por estar em Porto Alegre, apresentava os músicos com evidente orgulho. Griffey, por sua vez, sorria para a plateia com a naturalidade de quem toca no quintal de casa. Essa proximidade desarmou qualquer distância que um palco poderia criar – e transformou o Araújo Vianna em algo mais íntimo do que seu tamanho sugere.
O repertório da noite foi um passeio generoso pela discografia do CCR. Clássicos como “Susie Q”, “Commotion”, “Born on the Bayou”, “Fortunate Son”, “Proud Mary” e “Have You Ever Seen The Rain” dividiram espaço com outras preciosidades do catálogo, num setlist que equilibrou os hits mais conhecidos com escolhas que agradaram os fãs de primeira hora. Griffey transitou entre a garra elétrica e a delicadeza acústica com a autoridade de quem passou anos ao lado dos fundadores, e a entrega vocal de McGuinness manteve a temperatura alta do início ao fim.
A batalha silenciosa dos corredores
Se no palco a ordem era Rock N'Roll, nos corredores do Araújo Vianna travava-se uma batalha paralela, discreta e, convenhamos, bastante divertida de observar. Os seguranças tinham uma missão clara: manter os corredores livres e o público nos seus devidos lugares. A plateia, por sua vez, tinha uma missão igualmente clara – e completamente oposta.
Fãs que tentavam se aproximar do palco para filmar e fotografar eram gentilmente contidos e redirecionados com uma regularidade que dizia muito sobre o magnetismo da banda. Alguns adotavam a estratégia da dissimulação: erguiam-se com ar resoluto, como quem tem um destino urgente, mas o smartphone aceso na mão entregava o plano antes mesmo do primeiro passo. A rota ao banheiro, naquela noite, nunca foi tão movimentada – nem tão suspeita.
Um fã em particular merecia menção especial. Retirado do corredor mais de uma vez pelo mesmo segurança, ele retornava alguns minutos depois com a perseverança silenciosa de quem considera que a bronca recebida é um preço justo por mais alguns segundos de registro. Difícil condená-lo. Lá na frente, afinal, estava algo que valia a pena guardar.
A chuva que não veio — e a que chegou pela música
Porto Alegre acordou na quinta-feira com previsão de chuva para a noite. Os fãs que se preparavam para o show trocaram mensagens, consultaram aplicativos de meteorologia, pesaram o guarda-chuva na mão. A chuva, contudo, decidiu não aparecer – e o céu cooperou até o fim.
Mas ela chegou de outro jeito.
Quando, já perto do encerramento da noite, McGuinness anunciou “Have You Ever Seen the Rain?” com aquela introdução de guitarra que qualquer brasileiro reconhece nos primeiros dois segundos, algo se moveu na plateia. As pessoas que estavam sentadas se levantaram. As que já estavam de pé se aproximaram. E então aconteceu uma daquelas cenas que justificam a existência dos shows ao vivo: centenas de vozes cantando juntas, sem combinação prévia, sem ensaio – apenas a memória coletiva funcionando como um coral enorme e imperfeito, e exatamente por isso, lindo.
Havia pessoas que trocaram olhares naquele momento como quem compartilha um segredo antigo. Alguns permaneceram de olhos fechados, completamente dentro da música. A chuva que a previsão prometeu para aquela noite, o Creedence entregou – não do céu, mas do palco. Certeza de que alguns olhos marejaram e corações gritaram silenciosamente.
Uma turnê histórica
A data em Porto Alegre integrou a reta final da South America Tour 2026, que percorreu o Brasil ao longo de março e abril. Nos dias anteriores ao show gaúcho, a banda havia passado por Florianópolis, no dia 20, e por Criciúma, no dia 21. No total, foram cerca de vinte cidades brasileiras contempladas nesta temporada – um número que confirma o Brasil como um dos territórios mais receptivos do mundo para esse repertório. A turnê ainda segue por cidades brasileiras. A apresentação do dia 25 de abril, em São Paulo, para o "Somos Rock Festival", foi cancelada e deve acontecer apenas no segundo semestre – o site oficial da banda ainda não está atualizado.
O legado que não para
O CCR acumulou nove discos de ouro e sete de platina ao longo de uma carreira que durou pouco mais de quatro anos em sua forma original – de 1968 a 1972. A separação foi marcada por disputas internas e uma das sagas jurídicas mais longas da história do Rock, com conflitos sobre direitos autorais que se estenderam por décadas. Em 2023, John Fogerty reconquistou a participação majoritária sobre os direitos do seu próprio catálogo – uma vitória que chegou depois de muito tempo, mas que lhe permitiu celebrar sua obra com plena liberdade artística.
Enquanto o criador original celebra essa liberdade, o Revisiting Creedence cumpre outro papel igualmente essencial: manter esses hinos vivos nos palcos, com energia, fidelidade sonora e a credencial de quem viveu essa história por dentro. Não à toa, o CCR figura entre as dez bandas de Rock com mais execuções no YouTube, superando nomes como Pink Floyd – prova de que o Creedence não é nostalgia. É presente.
Na saída do Araújo Vianna, uma frase ouvida entre o público dizia tudo: "Parece que nunca acabou." Para quem esteve lá, de fato, não acabou.

UMA NOITE ROMÂNTICA COM O AIR SUPPLY NO ARAÚJO VIANNA EM 5 DE MAIO

Foto: Divulgação
Comemorando seus 50 anos de estrada, o duo australiano Air Supply, formado em 1975 por Graham Russell e Russell Hitchcock, vai desfilar os seus hits românticos no Auditório Araújo Vianna, na Avenida Osvaldo Aranha, 685, Parque Farroupilha, Bom Fim, na terça-feira, dia 5 de maio. O show começa às 21h.
O grupo marcou principalmente no Brasil nos anos 1980, com hits como All Out of Love”, “Lost in Love”, “Making Love Out of Nothing at All”, “The One That You Love” e “Lonely is the Night”, entre outras. Essas músicas continuam atravessando gerações e permanecem presentes nas rádios e playlists até hoje.
Os músicos Graham Russell e Russell Hitchcock seguem emocionando plateias ao redor do mundo — e o Brasil ocupa um lugar especial nessa história. Em entrevistas recentes, a dupla destacou o carinho pelo público brasileiro e a conexão única construída ao longo das décadas.
Mesmo após cinco décadas, o Air Supply mantém sua força nos palcos com apresentações que combinam potência vocal, sensibilidade e uma atmosfera intimista. O show em Porto Alegre promete ser mais do que um concerto — será um reencontro com memórias, sentimentos e canções que marcaram a vida de milhares de fãs.
A passagem pela capital gaúcha integra a turnê comemorativa global da dupla, que celebra meio século de carreira mantendo a essência que os tornou referência no Soft Rock Mundial.
Uma realização WOW
A WOW Entretenimento é uma produtora brasileira de entretenimento ao vivo com atuação estratégica na realização e desenvolvimento de projetos nacionais e internacionais de destaque.
Ao longo de sua trajetória, contribuiu para consolidar o Brasil na rota dos principais espetáculos do mundo, ao mesmo tempo em que participa do movimento de internacionalização da música brasileira, levando turnês e artistas nacionais para o cenário global. Com foco em excelência operacional, originalidade e impacto cultural, a empresa conecta artistas, marcas e público através da música e do entretenimento, fortalecendo a presença do Brasil no circuito internacional.
Serviço
Air Supply — Tour 50 Anos em Porto Alegre
Local: Auditório Araújo Vianna
Endereço: Avenida Osvaldo Aranha, 685, Parque Farroupilha, Bom Fim
Data: 05 de maio, terça-feira
Horário: 21h
Abertura dos portões: 19h30
Escute “Here I Am” no Spotify: https://open.spotify.com/playlist/37i9dQZF1DZ06evO2FbdbG

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Sepultura lança EP ‘The Cloud of Unknowing’, seu último trabalho de estúdio

Foto: Stephanie Veronezzi
O Sepultura lançou nesta sexta-feira, 24 de abril, pela ONErpm, o EP “The Cloud of Unknowing”. O disco é o último trabalho de estúdio da banda mineira de metal após quatro décadas de carreira.
O trabalho foi registrado ao longo de dez dias no Criteria Studios, em Miami, sob a produção de Stanley Soares. O projeto marca o primeiro lançamento oficial da banda com o baterista Greyson Nekrutman e traz quatro canções inéditas: “All Souls Rising”, “Sacred Books”, “The Place” e “Beyond the Dream”, faixa que conta com a participação especial de Tony Bellotto e Sérgio Britto, dos Titãs.
Andrea Kisser revelou que a inspiração para o título do disco veio de um movimento cristão do Século XIV. Ele afirmou ter adquirido os conceitos ao assistir a palestras do já falecido filósofo britânico Alan Watts durante a pandemia. O pensador questionava o uso excessivo de artefatos físicos e dogmas visuais para alcançar a espiritualidade. O músico relacionou a ideia com o distanciamento atual causado pela tecnologia.
“O Cloud of Unknowing me parece muito pertinente para os dias de hoje em relação à inteligência artificial. Hoje a gente vê muita gente criando um mundo paralelo; essas pessoas acham que aquilo é realidade e experiência, mas elas realmente não estão vivendo. Você precisa tirar essa nuvem do caminho e ter o acesso direto. Está todo mundo preso em telas e perdendo contato com a natureza e com as pessoas ao lado. A gente precisa se questionar se precisamos de toda essa parafernália para ter acesso à nossa espiritualidade”, explicou o guitarrista.
Já o baixista Paulo Xisto disse que “desde o começo a gente afirmou que foi um disco que não estava programado. Acho que todo o conceito dele vem nessa liberdade. Tem muita pegada do jazz pelo que o Greyson adicionou no Sepultura. Tem uma pegada meio King Crimson também. É meio prog. Então a gente tem essa visão meio eclética nesse disco. Eu tentei puxar o máximo possível das influências que eu tinha dos anos 70. Coisas do Yes, do Chris Squire. Isso foi linkado com a bateria, as guitarras pesadas. E claro, a voz do Derrick [Green]. Acho que o resultado final foi bastante satisfatório para todos nós”, explicou Paulo. Andrea ainda disse que a ideia da banda é incluir as quatro faixas do EP no setlist da turnê de despedida “Celebrating Life Through Death”. “Sem dúvida, para que elas façam parte do disco ao vivo [da turnê] também”, concluiu.
Fonte: Wikimetal
Escute “The Cloud of Unknowing” no Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/album/7gyjCQevMUqidIjSUkJKWK

CACHORRO GRANDE ANUNCIA RETORNO OFICIAL E PROJETA NOVO DISCO

Foto: Facebook
A banda porto-alegrense Cachorro Grande oficializou, após alguns anos de hiato e alguns shows esporádicos, que retornou à ativa, prometendo para breve um disco de músicas inéditas. A ideia é de que o retorno vá além da nostalgia, e marque o início de uma nova fase criativa.
O que começou como reencontros esporádicos ganhou proporção maior. Após o hiato iniciado em 2019, os integrantes voltaram a tocar juntos em apresentações especiais nos últimos anos e com as experiências que reacenderam a conexão musical e a resposta do público, o grupo transformou a turnê comemorativa de 26 anos em uma retomada permanente da carreira.
A forte química musical e a recepção positiva do público surpreenderam a banda. Em entrevista ao Blog N Roll, o vocalista Beto Bruno explicou que o entrosamento demonstrado ao vivo e a saudade dos palcos despertaram a ideia pelo retorno oficial.
A proposta, de acordo com os próprios integrantes, é clara: retomar a produção autoral e evitar que a banda se limite ao formato "turnê de reunião". A ideia é voltar a funcionar como uma banda criativa e contínua, não apenas celebrativa.
Conforme Beto Bruno "O plano é lançar esse disco antes do fim do ano e aí sim, voltar definitivamente com uma turnê, com disco. Que eu acho que é muito mais valioso. Então a maneira da gente respeitar o nosso público e a melhor maneira da gente seguir tocando seria com um disco novo. E é isso que vai acontecer. Mas o ponto mais relevante desse retorno está no futuro e não no passado. A Cachorro Grande já confirmou que entra em estúdio em junho para gravar um novo álbum, o primeiro trabalho inédito desde o fim das atividades".
A formação clássica se reúne com Beto Bruno (vocais), Marcelo Gross (guitarra), Gabriel Azambuja (bateria) e Pedro Pelotas (teclados).
Fonte: Sérgio Dall'Alba/ Whiplash.Net
Escute “Pista Livre” no Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/album/0EOHFaq2aiyDQL9KeVAlWL
Veja “Lunático” no Spotify: https://www.youtube.com/watch?v=-rc8SqdVbX4&list=RD-rc8SqdVbX4&start_radio=1

"Uma Noite Com o Dream Theater" (An Evening With Dream Theater) no Auditório Araújo Vianna, no dia 3 de maio

Foto: Mark Maryanovich
Após sua bem-sucedida turnê de 40º Aniversário na América Latina, o Dream Theater, retorna a Porto Alegre no próximo domingo, dia 3 de maio. O show pertence a turnê "Uma Noite Com o Dream Theater" (An Evening With Dream Theater), um espetáculo de aproximadamente 3 horas que celebrará o recente 16º álbum de estúdio da banda, “Parasomnia”. A apresentação acontece no Auditório Araújo Vianna, na Avenida Osvaldo Aranha, 685, Parque Farroupilha, Bom Fim, a partir das 20h.
A banda americana tocará ainda em mais cinco capitais do Brasil: dia 5, terça-feira, em Curitiba, no Live Curitiba; no dia 7, quinta-feira, em Brasília, no Dois Ipês; dia 9, sábado, em São Paulo, no Vibra São Paulo; dia 10, domingo, no Rio de Janeiro, no Vivo Rio; e no dia 12, terça-feira, em Belo Horizonte, no BeFly Hall.
Lançado em fevereiro de 2025, “Parasomnia” estreou no topo das paradas Billboard Top Hard Rock Albums, Hard Music Albums e Current Rock Albums, somando mais de 18 mil unidades vendidas na primeira semana. O disco será tocado na íntegra e ainda haverá a comemoração do 30º aniversário do aclamado “A Change of Seasons” (1995), além de outros sucessos da banda.
Com 71 minutos, “Parasomnia” reafirma a força criativa do Dream Theater e aprofunda sua abordagem conceitual sobre distúrbios do sono, contando com produção de John Petrucci, engenharia de James “Jimmy T” Meslin, mixagem de Andy Sneap e arte de Hugh Syme.
A banda atualmente conta com James LaBrie (vocais), John Petrucci (guitarra), John Myung (baixo) e Jordan Rudess (teclados) e Mike Portnoy, que reassumiu à bateria após alguns anos fora do grupo. Assim, o Dream Theater retoma à formação que moldou alguns dos capítulos mais importantes das quatro décadas de estrada.
Serviço
An Evening With Dream Theater
Local: Auditório Araújo Vianna
Endereço: Avenida Osvaldo Aranha, 685, Parque Farroupilha, Bom Fim
Quando: domingo, 03 de maio
Horário: 20h
Abertura da casa: 18h
Site de vendas: fastix.com.br/events/dream-theater-porto-alegre-2026
Vendas de ingressos físicos (sem taxas para pagamento por pix): Loja Short Fuse (Rua dos Andradas, 1560 Galeria Malcon, Loja 6B - Centro Histórico, Porto Alegre), segunda-feira a sexta-feira das 9h às 18h30. Sábado das 9h às 17h30.
Escute “Parasomnia” no Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/album/0ER7sdwIe6mfM63TbWcHmd

O CULTO DA LUCIFER EM PORTO ALEGRE — ENTRE RITUAL, MEMÓRIA E AFIRMAÇÃO NO ROCK CONTEMPORÂNEO

Texto: Cássio Toledo – Canal na Ponta da Agulha Fotos: Giovanni John Maglia Na véspera de feriado de Tiradentes, uma noite de segunda-fei...