quarta-feira, 15 de abril de 2026

Lynyrd Skynyrd em Porto Alegre: uma noite espiritual que entrou para a história do Araújo Vianna

Texto: Cássio Toledo – Canal Na Ponta da Agulha Canal
Fotos: Carlos Vargas
O que parecia inimaginável finalmente aconteceu. Quando menos se esperava, no fim de 2025, foi anunciado que a lendária Lynyrd Skynyrd pisaria em solo brasileiro em 2026. E Porto Alegre entrou nessa rota histórica, com produção da Mercury Concerts, no emblemático Auditório Araújo Vianna — palco de memórias que atravessam gerações.
Aqui escreve um cidadão latino-americano, um confesso “belchioriano”, em referência ao eterno Belchior, que aprendeu a venerar o Southern Rock desses americanos que ensinaram o mundo a equilibrar peso, groove e emoção.
Com casa lotada, mesmo com preços elevados e muitos grandes shows em datas próximas umas das outras (no dia anterior, teve Extreme na mesma casa) o show no dia 7 de abril, terça-feira, começou pontualmente às 21h — raridade que já indicava uma noite especial.
Setlist com história: cada música, um capítulo
A abertura com “Workin’ for MCA” já mostrou o tom da noite. A faixa é do álbum “Second Helping” (1974), segundo disco da banda — e carrega uma ironia direta ao contrato com a própria gravadora MCA Records. Um início afiado, cheio de atitude.
Logo depois, ainda no embalo inicial, “What’s Your Name” (do álbum Street Survivors, 1977) colocou o público para dançar. Curiosamente, esse disco foi lançado apenas três dias antes do trágico acidente aéreo que mudaria para sempre a história da banda.
Na sequência, “That Smell”, também de “Street Survivors”, intensificou a energia. A música, que fala sobre excessos e autodestruição, ganhou ainda mais peso simbólico após a tragédia de 1977 — e mesmo em um tom levemente abaixo, não perdeu força ao vivo.
O clima mudou com “I Need You”, outra de “Second Helping” (1974), trazendo um momento mais blues e introspectivo. Vale lembrar que esse disco também abriga o clássico absoluto “Sweet Home Alabama”, consolidando a banda no cenário mundial.
A intensidade voltou com “Gimme Back My Bullets”, faixa-título do álbum de 1976. Um disco que marcou uma fase de transição e resistência da banda — e que, em 2026, completa 50 anos, sendo celebrado em grande estilo na turnê.
Groove, crítica social e Southern Rock raiz
Um dos momentos mais surpreendentes foi “Saturday Night Special”, faixa de abertura de “Nuthin’ Fancy” (1975). Apesar da levada dançante e cheia de groove, a música traz uma crítica direta à violência armada — contraste que funcionou perfeitamente ao vivo. Faltou só uma pista de dança para transformar o Araújo Vianna em uma cena digna de Saturday Night Fever com John Travolta.
Já “Still Unbroken”, do álbum “God & Guns” (2009), representou a fase mais recente da banda. Escrita em homenagem ao baixista Leon Wilkeson, a faixa trouxe um peso mais direto, mostrando que o Skynyrd também sabe soar atual sem perder a essência.
Voltando aos anos 70, “The Needle and the Spoon” (Second Helping, 1974) trouxe o Southern Rock mais cru — aquele que a maioria do público queria ouvir. E a resposta veio em gritos viscerais.
Emoção, legado e homenagens
Um dos pontos mais emocionantes da noite foi “Tuesday’s Gone”, do álbum de estreia (Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd) (1973). No telão, imagens de Gary Rossington — último membro da formação original, falecido em 2023 — deram o tom de despedida e reverência.
Logo depois, “Simple Man”, também do disco de estreia, elevou o nível emocional. A canção, com sua mensagem atemporal de uma mãe aconselhando o filho, é um dos pilares da identidade da banda — e ao vivo, ganhou contornos ainda mais profundos, arrancando lágrimas dos lynyrdys maníacos, inclusive a vossa pessoa aqui. A energia voltou com “Gimme Three Steps” (1973), uma das músicas mais dançantes da fase inicial, seguida por “Call Me the Breeze”, clássico de J.J. Cale regravado no “Second Helping”. Destaque para o piano incendiário de Peter Keys.
O momento Brasil: Sweet Home… Rio Grande do Sul
Quando “Sweet Home Alabama” finalmente surgiu, foi explosão coletiva. A música, um dos maiores hinos do Rock, ganhou ainda mais força ao ver Johnny Van Zant empunhando a bandeira do Rio Grande do Sul — gesto que selou a conexão com o público brasileiro.
Curioso notar como a faixa atravessa gerações, chegando até os mais jovens, muitos deles impactados por jogos como Grand Theft Auto.
“Freebird”: o ápice absoluto
Após a saída do palco, os gritos por “Freebird” ecoaram pelo Araújo.
E então, o momento final.
A águia surgiu. O telão trouxe imagens de Ronnie Van Zant, em um dueto emocionante com seu irmão Johnny. A sensação era de que Ronnie estava ali, presente.
E quando o solo começou, com Rickey Medlocke assumindo o protagonismo, o tempo parou. Foram quase 10 minutos de pura catarse — um dos momentos mais intensos já vistos naquele palco.
Uma noite além da música
A própria banda definiu o show como “espiritual”.
E é difícil discordar.
Foi mais do que um show: foi uma aula de história do rock, uma celebração de legado e uma prova viva de que, mesmo após décadas e perdas irreparáveis, o Lynyrd Skynyrd segue carregando sua essência com dignidade. Quem esteve lá não assistiu apenas a um espetáculo.
Participou de um capítulo da história.

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