quarta-feira, 29 de abril de 2026

REVISITING CREEDENCE FAZ NOITE HISTÓRICA NO ARAÚJO VIANNA E REVIVE A ALMA DO BAYOU EM PORTO ALEGRE

Texto e fotos: Luciana Espíndola
O quarteto liderado por Dan McGuinness e Kurt Griffey entregou cerca de 90 minutos de clássicos do Creedence Clearwater Revival; show integrou a South America Tour 2026, na noite de quinta-feira, 23 de abril, a partir das 21h15min.
O Auditório Araújo Vianna, na Avenida Osvaldo Aranha, se transformou em uma máquina do tempo com destino à Califórnia dos anos 1960. A banda Creedence Clearwater Revival (CCR), que outrora se chamava The Blue Velvets e The Golliwogs, entregou um grande espetáculo tocando seus maiores sucessos.
O responsável pela viagem foi o Revisiting Creedence, grupo que carrega no nome e no DNA a missão de manter vivo o legado do Creedence Clearwater Revival. Após décadas rodando o mundo ao lado de Stu Cook e Doug "Cosmo" Clifford – os dois membros sobreviventes da formação original do CCR – o vocalista e guitarrista Dan McGuinness e o guitarrista Kurt Griffey voltaram a Porto Alegre com uma formação afiada e um repertório capaz de fazer qualquer amante do rock clássico perder o fôlego.
A banda iniciou no final dos anos 1950, quando quatro jovens chamados John Fogerty, Tom Fogerty, Stu Cook e Doug Clifford inventaram um som que misturava Rock, Blues e Country e conquistaram o mundo inteiro. Mas foi em 1967 que escolheram definitivamente o nome do grupo.
O público que foi ao encontro da própria história
A plateia que foi chegando ao longo da noite era formada, em grande parte, por pessoas que carregam o CCR na memória afetiva de forma muito concreta – casais lado a lado, mãos dadas, muitos deles tiveram essas músicas como trilhas de suas vidas. Havia ali uma cumplicidade silenciosa entre o público e o repertório que estava por vir: a de quem não vai simplesmente assistir a um show, mas reencontrar algo que lhe pertence. Não são apenas singles, são hinos de uma geração nostálgica.
Esse tipo de plateia não grita por impulso. Ela reconhece. E quando reconhece, vai fundo.
Uma linhagem de respeito
Para entender o peso do que aconteceu no Araújo Vianna, é preciso conhecer a história por trás do projeto. McGuinness e Griffey passaram mais de uma década tocando ao lado dos próprios fundadores do CCR no projeto Creedence Clearwater Revisited — criado em 1995 por Cook e Clifford para levar o repertório da banda aos palcos do mundo depois da separação oficial, em 1972. Não se trata, portanto, de músicos que simplesmente estudaram um som. São profissionais que o viveram de dentro.
O Revisiting Creedence surgiu para dar sequência a essa linhagem depois que o Revisited encerrou suas atividades em 2021. Completando a formação atual estão o baixista Mat Scarpelli e o baterista Ron Wikso – este último escolhido pessoalmente por Doug Clifford para ocupar a cadeira que ele mesmo deixou. A palavra "substituto" soa quase injusta para descrever Wikso: sua precisão rítmica na noite de quinta foi cirúrgica, honrando o posto com a seriedade que ele exige.
O show
Quando McGuinness abriu a boca para o primeiro verso de "Born On The Bayou", o pacto entre palco e plateia estava firmado. A voz rouca, quente e inconfundível que o gaúcho esperava ouvir estava lá – não como imitação, mas como interpretação comprometida e respeitosa de um cancioneiro que pertence à humanidade.
Desde os primeiros minutos, ficou claro que McGuinness e seus companheiros não vieram apenas tocar — vieram conversar. Entre uma música e outra, o vocalista tomava o microfone e se dirigia ao público no seu próprio idioma, o inglês, com a descontração de quem não precisa de tradução para se fazer entender – porque a música já havia feito esse trabalho. Em determinado momento da noite, McGuinness empunhou uma bandeira do Brasil sobre o palco, gesto que arrancou uma das maiores reações da noite e deixou claro que o carinho pela plateia brasileira não era protocolo: era genuíno. Perguntava se a galera estava bem, agradecia com emoção visível por estar em Porto Alegre, apresentava os músicos com evidente orgulho. Griffey, por sua vez, sorria para a plateia com a naturalidade de quem toca no quintal de casa. Essa proximidade desarmou qualquer distância que um palco poderia criar – e transformou o Araújo Vianna em algo mais íntimo do que seu tamanho sugere.
O repertório da noite foi um passeio generoso pela discografia do CCR. Clássicos como “Susie Q”, “Commotion”, “Born on the Bayou”, “Fortunate Son”, “Proud Mary” e “Have You Ever Seen The Rain” dividiram espaço com outras preciosidades do catálogo, num setlist que equilibrou os hits mais conhecidos com escolhas que agradaram os fãs de primeira hora. Griffey transitou entre a garra elétrica e a delicadeza acústica com a autoridade de quem passou anos ao lado dos fundadores, e a entrega vocal de McGuinness manteve a temperatura alta do início ao fim.
A batalha silenciosa dos corredores
Se no palco a ordem era Rock N'Roll, nos corredores do Araújo Vianna travava-se uma batalha paralela, discreta e, convenhamos, bastante divertida de observar. Os seguranças tinham uma missão clara: manter os corredores livres e o público nos seus devidos lugares. A plateia, por sua vez, tinha uma missão igualmente clara – e completamente oposta.
Fãs que tentavam se aproximar do palco para filmar e fotografar eram gentilmente contidos e redirecionados com uma regularidade que dizia muito sobre o magnetismo da banda. Alguns adotavam a estratégia da dissimulação: erguiam-se com ar resoluto, como quem tem um destino urgente, mas o smartphone aceso na mão entregava o plano antes mesmo do primeiro passo. A rota ao banheiro, naquela noite, nunca foi tão movimentada – nem tão suspeita.
Um fã em particular merecia menção especial. Retirado do corredor mais de uma vez pelo mesmo segurança, ele retornava alguns minutos depois com a perseverança silenciosa de quem considera que a bronca recebida é um preço justo por mais alguns segundos de registro. Difícil condená-lo. Lá na frente, afinal, estava algo que valia a pena guardar.
A chuva que não veio — e a que chegou pela música
Porto Alegre acordou na quinta-feira com previsão de chuva para a noite. Os fãs que se preparavam para o show trocaram mensagens, consultaram aplicativos de meteorologia, pesaram o guarda-chuva na mão. A chuva, contudo, decidiu não aparecer – e o céu cooperou até o fim.
Mas ela chegou de outro jeito.
Quando, já perto do encerramento da noite, McGuinness anunciou “Have You Ever Seen the Rain?” com aquela introdução de guitarra que qualquer brasileiro reconhece nos primeiros dois segundos, algo se moveu na plateia. As pessoas que estavam sentadas se levantaram. As que já estavam de pé se aproximaram. E então aconteceu uma daquelas cenas que justificam a existência dos shows ao vivo: centenas de vozes cantando juntas, sem combinação prévia, sem ensaio – apenas a memória coletiva funcionando como um coral enorme e imperfeito, e exatamente por isso, lindo.
Havia pessoas que trocaram olhares naquele momento como quem compartilha um segredo antigo. Alguns permaneceram de olhos fechados, completamente dentro da música. A chuva que a previsão prometeu para aquela noite, o Creedence entregou – não do céu, mas do palco. Certeza de que alguns olhos marejaram e corações gritaram silenciosamente.
Uma turnê histórica
A data em Porto Alegre integrou a reta final da South America Tour 2026, que percorreu o Brasil ao longo de março e abril. Nos dias anteriores ao show gaúcho, a banda havia passado por Florianópolis, no dia 20, e por Criciúma, no dia 21. No total, foram cerca de vinte cidades brasileiras contempladas nesta temporada – um número que confirma o Brasil como um dos territórios mais receptivos do mundo para esse repertório. A turnê ainda segue por cidades brasileiras. A apresentação do dia 25 de abril, em São Paulo, para o "Somos Rock Festival", foi cancelada e deve acontecer apenas no segundo semestre – o site oficial da banda ainda não está atualizado.
O legado que não para
O CCR acumulou nove discos de ouro e sete de platina ao longo de uma carreira que durou pouco mais de quatro anos em sua forma original – de 1968 a 1972. A separação foi marcada por disputas internas e uma das sagas jurídicas mais longas da história do Rock, com conflitos sobre direitos autorais que se estenderam por décadas. Em 2023, John Fogerty reconquistou a participação majoritária sobre os direitos do seu próprio catálogo – uma vitória que chegou depois de muito tempo, mas que lhe permitiu celebrar sua obra com plena liberdade artística.
Enquanto o criador original celebra essa liberdade, o Revisiting Creedence cumpre outro papel igualmente essencial: manter esses hinos vivos nos palcos, com energia, fidelidade sonora e a credencial de quem viveu essa história por dentro. Não à toa, o CCR figura entre as dez bandas de Rock com mais execuções no YouTube, superando nomes como Pink Floyd – prova de que o Creedence não é nostalgia. É presente.
Na saída do Araújo Vianna, uma frase ouvida entre o público dizia tudo: "Parece que nunca acabou." Para quem esteve lá, de fato, não acabou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O CULTO DA LUCIFER EM PORTO ALEGRE — ENTRE RITUAL, MEMÓRIA E AFIRMAÇÃO NO ROCK CONTEMPORÂNEO

Texto: Cássio Toledo – Canal na Ponta da Agulha Fotos: Giovanni John Maglia Na véspera de feriado de Tiradentes, uma noite de segunda-fei...