quarta-feira, 29 de abril de 2026

SOB A CHUVA E APLAUSOS, GUILHERME ARANTES EMOCIONA PORTO ALEGRE COM 50 ANOS DE MÚSICA E MUITO CARISMA

Texto e fotos: Luciana Espíndola
Com piano de cauda, histórias que precediam cada canção e uma generosidade rara de palco, o cantor e compositor paulistano celebrou meio século de carreira no Auditório Araújo Vianna na noite de sábado, 25 de abril.
A previsão era de chuva, e a noite cumpriu o anúncio – fina, insistente, tipicamente gaúcha. Mesmo assim, o Araújo Vianna estava lotado. Alguns chegaram com guarda-chuvas, outros vieram já molhados. O mau tempo ficou do lado de fora.
A noite marcou mais uma etapa da turnê "50 Anos-Luz", celebração de meio século de carreira de um dos artistas mais consagrados da Música Nacional, que revisita clássicos que marcaram gerações em um espetáculo que combina emoção, tecnologia e a força de uma obra que se tornou trilha sonora da vida de milhões de brasileiros.
O artista e seus instrumentos
Um dos maiores pianistas do país, Guilherme Arantes é um dos poucos brasileiros a integrar o Hall da Fama da tradicional fabricante americana de pianos Steinway & Sons. E foi justamente ao piano que ele dominou o palco do Araújo Vianna naquela noite de sexta-feira. Alternando com naturalidade entre o piano de cauda e o teclado ao longo do show, Arantes demonstrou por que seus 72 anos de idade e cinco décadas de estrada não diminuíram em nada a sua autoridade musical. Pelo contrário: há uma precisão e uma intimidade com os instrumentos que só o tempo constrói.
O piano de cauda ocupava o centro do palco como uma declaração de intenções. Quando Arantes se sentou diante dele, a plateia sabia que estava prestes a receber algo além de algumas músicas – receberam confissões. A música “Pedacinhos”, por exemplo, aquela que fala “Bye Bye, So Long, Farewell” foi escrita para Vanusa. Porém, em virtude à sua separação de Antônio Marcos, ela não achou de bom tom gravá-la.
De corpo e alma no palco
Guilherme Arantes não é daqueles artistas que ficam parados atrás de um instrumento esperando a música acabar. Durante toda a noite, conversou com o público com a gesticulação ampla e espontânea de quem não sabe fingir distância. Sacudia as pernas no ritmo, batia palmas convidando a plateia a entrar junto, sorria com a desenvoltura de quem está exatamente onde quer estar. Em certos momentos, parecia menos um artista conduzindo um show e mais um anfitrião recebendo amigos em casa – e a plateia respondia na mesma moeda, sem cerimônia.
Essa presença física e emocional incendiou o coração do público com uma energia que a chuva lá fora não tinha a menor chance de apagar.
As histórias antes das canções
Uma das marcas mais expressivas da noite foi a generosidade narrativa de Guilherme Arantes. Em diversas músicas do setlist – que incluiu sucessos como “Amanhã”, “Planeta Água”, “Meu Mundo e Nada Mais”, “Pedacinhos”, “Cheia de Charme”, “Lance Legal”, “Loucas Horas” e outros – o artista tomava o microfone antes dos primeiros acordes para contar a história por trás daquela canção: quando a escreveu, em que circunstância de vida, para quem, porque.
Não eram discursos longos nem ensaiados. Eram confidências. O tipo de coisa que transforma um show em algo muito mais próximo de uma conversa entre velhos conhecidos. A plateia ouvia em silêncio respeitoso e reagia com o calor de quem se reconhece naquelas histórias – porque em muitos casos, de fato se reconhecia. Muitas daquelas canções estiveram presentes em momentos que o público lá presente viveu de forma muito concreta.
Banda e agradecimentos
Arantes fez questão de apresentar cada integrante que o acompanhava naquela noite: Willy Verdaguer no contrabaixo, Gabriel Martini na bateria e Alexandre Blanc na guitarra. Cada um chamado pelo nome, com palavras de reconhecimento genuíno pelo trabalho compartilhado.
Mas o momento que mais tocou foi quando o cantor falou sobre a ausência do guitarrista Luiz Sérgio Carlini, que não pôde estar em Porto Alegre por estar se recuperando de uma pneumonia. Arantes pediu uma salva de palmas para ele – gesto simples e cheio de afeto, que arrancou aplausos calorosos da plateia. E explicou, com a leveza de quem cuida das pessoas ao redor, que ninguém havia sido escalado especificamente para substituí-lo: todos os músicos presentes haviam absorvido coletivamente a sua ausência, dividindo entre si o que Carlini normalmente faz. Uma solução que revela tanto a qualidade daqueles músicos quanto o espírito de equipe que sustenta aquele grupo.
Os agradecimentos se estenderam também a toda a equipe de produção, técnicos, roadies e organizadores que tornaram o espetáculo possível. Num cenário em que o trabalho por trás dos bastidores raramente é reconhecido publicamente, aquele gesto simples e direto fez diferença.
“Deixa Chover” e a cumplicidade com a noite
Havia uma música no repertório que, naquela sexta-feira chuvosa, adquiriu uma dimensão quase teatral. Quando os primeiros acordes de “Deixa Chover” soaram, a plateia teve exatamente a reação que uma coincidência tão perfeita merece: um sorriso coletivo, aquele tipo de alegria compartilhada que só acontece ao vivo. Do lado de fora do auditório, a chuva continuava caindo. Dentro, Arantes cantava como se tivesse combinado tudo com o tempo. No telão, uma imagem de paisagem com céu chuvoso completava o espetáculo.
A canção – que já percorreu trilhas de novela e décadas de rádio – ganhou naquela noite um contexto que nenhum estúdio poderia reproduzir. E o público cantou junto, é claro. Como sempre faz.
“Um Dia, Um Adeus” – em dois idiomas, duas emoções
Ainda no corpo do show, antes do encerramento, a noite reservou um dos seus momentos mais icônicos. “Um Dia, Um Adeus” é um dos maiores clássicos de Guilherme Arantes – canção que atravessa décadas sem perder uma gota de emoção. Mas naquele sábado no Araújo Vianna ela ganhou uma dimensão extra: Arantes a cantou primeiro em português, com toda a carga afetiva que a letra carrega em língua materna, e em seguida em inglês – versão que ficou conhecida como “Wonderful in My Life”. Para acompanhar, o telão ao fundo projetava a letra em inglês, gesto cuidadoso que permitia a todos acompanhar cada palavra.
Ouvir a mesma canção nas duas línguas, na sequência, enquanto as palavras apareciam iluminadas ao fundo, foi como ver a mesma paisagem ao amanhecer e ao entardecer: diferente, complementar, igualmente bela.
O bis, os beijos e a grade que virou encontro
Quando o show deu sinais de encerramento, a plateia não quis deixar. O coro de "mais um" tomou o Araújo Vianna com a insistência carinhosa de quem não se conforma com a despedida. E Guilherme Arantes – que claramente também não queria ir embora – voltou ao palco com a banda para o bis que a noite merecia.
Uma das escolhas foi “Fã Número 1”, e o efeito foi imediato: quem estava sentado levantou, quem estava de pé avançou em direção à grade de contenção. Os seguranças, naquele momento, fizeram o que toda boa segurança sabe fazer quando a situação pede: deixaram acontecer. A aproximação foi permitida, e o espaço entre o público e o palco encolheu até quase desaparecer.
No trecho "Ali no gargarejo, jogando beijo", a letra saiu da música e entrou na realidade: fãs de todas as idades jogavam beijos para o palco e faziam corações com as mãos, num daqueles gestos coletivos e espontâneos que nenhum diretor de show consegue ensaiar. Arantes recebeu tudo aquilo com o sorriso de quem sabe exatamente o que significa.
“Balão Azul” e a paleta que virou memória
O encerramento foi puro afeto. “Balão Azul” – canção que habita o imaginário afetivo de pelo menos duas gerações de brasileiros – fechou a noite com alegria leve e certeira.
E foi justamente nesse clima de celebração que aconteceu um dos gestos mais delicados e quase despercebido da noite: o guitarrista Alexandre Blanc avistou um menino que acompanhava a mãe bem próximo ao palco, acenou para um dos seguranças e pediu que entregasse ao garoto a sua paleta de guitarra. Um gesto pequeno. Do tipo que uma criança não esquece.
Cinquenta anos que chegaram à luz
Com mais de 140 apresentações anuais, sempre embaladas por plateias que cantam em coro seus sucessos, Guilherme Arantes prova que sua música é atemporal e segue conquistando novas gerações. Nos anos 1980, com seu dom para criar melodias cativantes e letras extremamente fortes e sensíveis, chegou a colocar 12 músicas em primeiro lugar nas paradas de sucesso do país. Com mais de 30 composições eternizadas em novelas e interpretadas por artistas como Elis Regina, Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Zezé Di Camargo & Luciano e Anavitória, Guilherme Arantes consolida seu lugar como patrimônio da música nacional.
Cinquenta anos de luz não são apenas cinquenta anos de canções lançadas. São cinquenta anos de histórias contadas antes do primeiro acorde, de beijos jogados para o palco, de crianças que recebem uma paleta de guitarra e guardam para sempre. De uma obra que escolheu as pessoas – e que as pessoas, correspondendo, escolheram de volta.
Na noite de sábado em Porto Alegre, sob a chuva que “Deixa Chover” parecia ter convidado, Guilherme Arantes provou mais uma vez que meio século de estrada não cansa. Renova.
A turnê "50 Anos-Luz" segue pelo Brasil. Próximas datas: Ribeirão Preto (09/05), Belém (15/05), Manaus (16/05), Brasília (23/05) e Santos (30/05).

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